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Moral da Paz

domingo, 16 de setembro de 2012

Amor que fere - Depoimentos de Vítimas


Maria tem um marido que é violento e não comparticipa no sustento da casa e dos filhos. Desde que se juntou à associação que Maria consegue pelo menos satisfazer necessidades básicas e garantir que os filhos do primeiro casamento possam ir à escola.
Ainda vive com o marido que a agride, mas sente-se mais apoiada pela associação.


‘Não estudei muito, terminei na 1ª classe. Rezo nos 12 Apóstolos.
Não casei, o meu primeiro marido faleceu e quando ele morreu já tínhamos feito 5 filhos, faleceram 2 filhos e fiquei com 3 filhos. Depois juntei-me com um outro homem e fizemos 4 filhos e no total agora são 7 filhos.
A casa onde vivo, arranjamos os dois o talhão e construímos juntos.
Não foi fácil chegar aos dias de hoje ainda na companhia deste meu marido actual, pois devíamos ter separado ainda quando eu amamentava o meu primeiro filho que tive com ele. Tive muita paciência para eu ainda estar com ele. Passava a vida a bater-me, andava com outras mulheres à frente de mim, mandava-me embora e às vezes dormia na cozinha. O nosso primeiro filho desmamei-o enquanto dormia nos sacos até que veio a mãe dele falou e procurou saber afinal o que é que ele estava a fazer. E mesmo assim não tomava a peito o que a mãe dizia. Vivia com muita paciência e depois chegou uma altura em que decidi ser um dos membros da AVIMAS e depois quando aqui cheguei entrei para um projecto de geração de rendimento. Deram-me dois bidões de petróleo e quando fui vender aquele petróleo por cada bidão tinha que trazer 180 e ficava com 9 contos de lucro. E assim consegui pelo menos procurar a vida para ajudar a minha casa, conseguia mandar os meus três filhos do primeiro casamento para a escola e aqueles que tive no segundo casamento era o próprio pai que se encarregava de mandar-lhes à escola, pois ele dividia, faz diferença entre os filhos dele e os do falecido.
Até agora que temos 4 filhos não conheço o vencimento dele, não me dá vestuário, nem pelo menos "soutien" nunca me deu, e para eu me vestir tenho que desenrascar. Até para eu vir para aqui (na associação) ele às vezes não quer, só que eu venho à força, pois ele faz a vida dele lá fora, satisfaz-se lá fora e nunca faz nada para deixar-me feliz.
Ele agora diminuiu um pouco (com as agressões) por ter medo dos meus pais. Como vocês vêem, estas cicatrizes foram originadas por porrada. Os meus pais disseram que haviam de lhe meter na cadeia e como ele conhecia o local onde meu pai trabalhava (como segurança) ficou assustado. Mas em relação a outros aspectos, como não mostrar-me o vencimento, envolver-se com outras mulheres, fome em casa, ele não mudou, continua o mesmo.
Já fui há muito tempo fazer queixa e quando resolveram disseram que tinha que ficar detido. Mas eu não aceitei que ele ficasse na cadeia porque quando eu saísse dali (da polícia) era para casa dele onde eu voltaria e também porque teria que levar comida todos os dias para a cadeia. Como cresci lá no mato, para ver que dar queixa é uma forma real ou viável para a resolução do problema não foi fácil. Eles aceitaram (os polícias) que eu tirasse a queixa, mas mesmo assim disseram que tinha que pagar algum dinheiro relativo ao processo.
O problema foi porque tiraram-me RX, na altura estava a amamentar a primeira filha com ele e ele bateu-me, e na polícia pensavam que as minhas costelas estivessem partidas. Afinal, era sangue que estava a descer do lado das mamas, deste lado das costelas.
O meu próprio pai não queria (que eu continuasse) e se fosse por ele até aqueles três filhos que tive não deveriam ter nascido devido aos maus tratos, terminaria pela primeira.
O que faz com que não saia de casa é o facto de existirem problemas tradicionais, pois o meu actual marido tem relações de parentesco com o falecido e quando eu volto para a casa dos meus pais fico muito doente e não aguento. Ele, o falecido, diz que tenho que voltar para a casa dos seus familiares. O espírito do falecido não aceita que aqueles miúdos sejam criados fora da casa da família dele.
Eu quero sair mas tenho medo. Mesmo o meu próprio marido quando saio de casa também passa mal, no serviço ou aonde estiver também adoece, encontramo-nos juntos todos doentes, mas por causa dos espíritos do falecido.
Foi a família do falecido que me aconselhou para casar com este homem, não foi aquilo de nos entendermos, de escolher sozinha. Foi pela autorização e tradição da família do marido. Pensei que fosse só aquela primeira cerimónia, então prontos, não podia se livrar. Mas não aceitaram e obrigaram a ficar com o familiar.
Ficamos bem dois anos, antes de ter a primeira filha. Logo que tivemos a primeira filha, pronto, tudo aconteceu.’


-*-


 Carla é viúva e vive de maneira independente na sua casa. Teve problemas com o cunhado que queria ficar-lhe com a casa, mas foi ajudada e isso não aconteceu. Com o falecido marido viveu numa relação muito violenta.

'Tenho 54 anos e sou viúva. Só tive habilitações da 4ª classe.
Rezo na igreja Metodista.
O meu marido faleceu em 97. Com a família do meu marido a gente entendia-se antigamente mas quando o marido faleceu já não houve entendimento. Quando eu tenho dificuldades na minha casa não tenho onde ir, porque não nos entendemos com o meu cunhado, ele é cabeça da casa, é cabeça da família do meu marido, porque o meu sogro já é muito velho. O meu cunhado quis-me ameaçar para levar a casa, quis-me ameaçar, mas houve pessoas que me defenderam e ele não conseguiu. Agora ele tem rancor, não fala mais comigo.
Mas graças a Deus, como sabe estou aqui na associação, o pouco que eu ganho ainda consigo fazer alguma coisa, tenho as minhas machambas lá fora que me têm ajudado a sustentar os meus netos aqui em casa.
Com o meu falecido marido tive problemas de violência. Ele também era muito mulherengo, tinha muitas mulheres lá fora e quando arranjava uma mulher lá fora, eu aqui em casa tinha que passar mal.
Quando a pessoa atrasar tem que perguntar saber porque é que hoje atrasou então quando perguntava levantava o barulho. Levantava o barulho e já me bateu por muitas vezes até em 92 o nosso caso foi parar no Tribunal porque eu já estava cansada, queria fazer divórcio, casamos mesmo oficialmente.
O caso foi até à Policia, já estivemos quase para fazer o divórcio, mas não fiz, porque quando eu me zanguei fui a casa dos meus pais, a minha filha estava grávida e estava aqui em casa. E durante a gravidez ela andava sempre doente e a gravidez tinha já uns seis meses e começou a ter hemorragia. Então quando ela foi-me dizer isso eu tinha que vir em casa para acompanhar a doença da minha filha. Quando veio o papel do Tribunal a chamar para irmos resolver o nosso problema e eu já estive aqui em casa. Então quando já fomos resolver o problema eu disse "ah, eu estou a perdoar o meu marido".
Sempre tive as minhas machambas, mas quando eu me casei com ele eu trabalhava, mas depois ele começou a proibir para ir trabalhar. Eu trabalhava em casa de uma senhora, ia fazer costura em casa dela. Ele não queria que trabalhasse, mas não dava o suficiente para casa.
Casamos por amor. A violência começou passados uns 2 anos. Começou por essa coisa de ele ter uma amante lá fora, ter uma mulher lá fora. Essa mulher já era amiga dele há anos mas depois vieram a recomeçar enquanto eu já estive ali dentro do lar, porque essa mulher às vezes vinha aqui dentro da casa. Mesmo na minha presença ela vinha, vinha porque na altura que o meu marido me levou estava casa dos pais dele e tinha feito uma casinha ali a frente para nós. Agora aquela mulher tinha possibilidade de entrar porque vendiam bebida ali na casa do meu genro, e ela vinha como se fosse para beber.
Fui falar com a família, tinha irmãos, tios. Ele disse a eles que eu quero drogar a ele. Um enteado da minha mãe que é filho do meu padrasto disse-lhe: "eu tenho que acompanhar o vosso problema, desde há muito tempo que eu oiço que você anda a maltratar a minha irmã, agora eu quero saber porquê. Porque é que você anda a maltratar a ela? Porque é que vocês não podem falar bocalmente em vez de andar a bater?"
Ele avisou-me para não ir à OMM: "se você ir queixar à OMM é para quê? Eu não te encontrei na OMM, fica sabendo que a gente vamos separar". E como tinha pena dos meus filhos que ainda eram menores, eu não queixava.
Daquela vez que fui queixar à polícia já estava cansada, já estive cansada de andar sempre a levar porrada porque eu comecei a contar os anos que estamos juntos. Os nossos filhos já são grandes, agora já temos netos e ainda continua a me dar porrada. Por isso já estou cansada, agora tenho que ir queixar.
Na polícia comecei a contar tudo, toda a minha historia, depois eles andaram a dizer que vocês já não dá para separar, não sei o quê... Então, o meu irmão, na primeira chamada que me chamaram lá na polícia o meu irmão foi comigo e disse "quero que este processo vai até ao Tribunal, tem que entrar no Tribunal. Se é que é para aconselhar a eles hão-de aconselhar juntos lá. Mas eu não quero que o caso termine aqui na esquadra, tem que ir para a frente". E o caso foi terminar lá no Tribunal.
Para acabar com a violência, pelo menos para melhorar, eu acho que a mulher tem o mesmo direito que o homem. Quer dizer, se um homem vem com uma mulher aqui à frente da esposa, ela não pode gostar. Agora se eu também venho com um homem à frente dele, acho que ele também não pode gostar. Agora se ele sabe que aquilo é uma ofensa para a mulher, ele também deve corrigir-se e saber comportar-se, saber comportar-se como deve ser à frente da mulher.'

-*-



 Isabel abandonou uma relação conjugal muito violenta e agora vive com a mãe e os filhos. Está a reaprender a sentir-se segura e a experiência de participar na associação tem-lhe trazido confiança em si própria. Também sempre foi muito apoiada pela sua mãe e família em geral (o pai já faleceu), o que contribuiu para lhe dar força para se separar do seu agressor.


'Eu tenho 41 anos, sou da igreja Metodista. Nasci aqui e estudei até ao 2º ano no Liceu de antigamente, devido a doenças não consegui estudar mais. Para viver faço negócios. Compro e vendo.
Aqui na associação tem desses projectos que nos ajudam. Ajudam e nós aprendemos, primeiro fomos à capacitação e aprendemos como nos defendermos de várias doenças e depois disso estamos a trabalhar e somos activistas. Existem projectos de rendimento também, como somos membros temos tido.
De momento sou mãe solteira, mas saí do lar devido à violência.
Tive problemas no lar com meu marido e eu de princípio sou doentia, mas agora estou melhor. Mas fui epiléptica durante muitos anos, deixei de estudar por causa dessa doença. Tive problemas de epilepsia e sistema nervoso, então os meus pais não aceitaram que me casasse, mas devido à vida eu optei em convencê-los e casei. Eles explicaram e o meu marido aceitou, mas quanto mais a doença ia-me atacar o meu marido aproveitava dos ataques para me agredir. Então sempre batia-me, falava e fazia não sei o quê, às vezes quando eu estivesse atacada carregava-me e metia-me no carro e ia-me atirar em casa da minha mãe. Mas quando recuperava voltava por causa dos miúdos. Então, uma das vezes ele amarrou-me os pés e as mãos e fez o que podia, só que não conseguiu-me tirar a vida porque não era o dia. Então dessa vez decidi que não. Chamei os pais dele e os meus pais, pedi para voltar para a casa dos meus pais. Tenho três filhos com ele.
Eu casei em 87 mas fui para o lar em 85. Então, fiquei desde 85 e saí do lar em 98.
Aguentei muitos anos naquilo de pensar que ele talvez vai melhorar. Ele tinha mais mulheres fora, dizia que ele procura mulheres porque eu como sou doentia não consigo lhe satisfazer. Eram esses os argumentos e eu realmente não tinha formas, só tinha que ficar na casa e sujeita a suportar todas as maldades que ele fazia naquilo de que talvez ele havia de melhorar. Só que nunca melhorava e ainda piorava mais, chegava a altura que já nem nos sustentava. Mas a minha mãe sempre me apoiava, eu sou a única filha, e ela sempre quase que vivia connosco, às vezes eu não aguentava cozinhar e ela tinha que cozinhar trazer. Sempre passei mal eu até sair em 98.
Os seus pais criticavam a violência dele. Não ficavam ao lado dele, sempre lhe criticavam.
Ele trabalhava na defesa na altura e acho que ele sempre teve um comportamento contra, porque abandonou o serviço, deixou de trabalhar porque via que ele via a herança já de que eu era órfã de pai sendo a única filha. Então achou que abandonando o trabalho viria a governar. No entanto a minha herança não conseguiu ver nada devido às atitudes dele. Começou a espalhar as coisas e os meus familiares optaram em lhe convencer a voltar a arranjar emprego para ele, para ele voltar a trabalhar, mesmo nós os donos preferíamos trabalhar para aumentar o pouco que o pai tinha-nos deixado. E ele, a ideia dele era diferente, era de aproveitar aqueles bens já que era eu e a mamã só.
À polícia nunca tentei ir, mas queria era a MULEIDE. Mas optei em abandonar vendo a reacção dele. Porque chamaram-nos, fomos para lá, mas eles não ameaçaram a ele, o que eles fizeram foi dar conselhos. Deram-nos conselhos porque ele tinha que voltar de novo a casa, tomar o meu lar e aconselharam a ele para deixar aquele comportamento. Perante o conselheiro que nos deram na MULEIDE ele prometeu que sim. Só que quando voltássemos, eu ainda estava em casa da mamã e ele vinha da casa dele, quando voltássemos ele dizia "você foste queixar para ver se esta gente me obriga a dar-te dinheiro e a casa, mas desta vez não". E no dia marcado íamos de novo para lá e o conselheiro sempre perguntava, eu perante a presença dele tinha medo de dizer mas quando nos separávamos eu dizia que ele depois promete muitas ameaças. Por isso eu tenho medo e eles sempre nos davam conselhos, não lhe mostravam que já tinham conhecimento mas ele foi remitente. Acabei desistindo embora eles continuaram a aconselhar para recomeçar o processo. Não aceitei, fui até à KULAYA, fiz tratamentos lá que eram necessários porque foi naquela altura que ele me amarrou e eu tinha os pés inchados, as mãos inchadas. Fiz os tratamentos mas depois tive medo e desisti.
As nossas agressões não se ouviam porque eu só descobria porque os miúdos depois diziam-me. Os filhinhos como já sabiam falar, eles é que diziam, eu só admirava assim por ver sinais de cordas e às vezes os braços inchados, mas sem saber o que é que me tinha acontecido. Porque naquela altura eu ficava inconsciente.
Eu realmente não estou feliz com a violência. Por exemplo, se isso que aconteceu comigo acontecesse com uma outra pessoa e eu descobrisse, acho que podia arranjar formas de ajudar. Arranjar ou mesmo a polícia ou o quê, irem lá naquela casa naquele devido momento. Eu não sei se fosse eu a ver, a assistir esses acontecimentos o que é que eu havia de fazer àquele homem. Não se deve maltratar porque a mulher também é um ser humano como eles.
Quando saí eu só levei os meus bens individuais, bens comuns não.'

 -*-

 
"Eu achava normal quando era um beliscão. Depois, quando começou a puxar meu cabelo, pensei: ‘Se eu casar com ele, me mata’." Aos 14 anos, Cláudia começara a namorar um rapaz mais velho, extremamente ciumento. Um dia, quando a viu conversando com um surfista na praia, o namorado agarrou sua cabeça e a enfiou na água, num "caldo" de intermináveis segundos, enquanto ela esperneava, submersa, acreditando que ia morrer.
Vítima de violência do pai desde a infância, Cláudia ficava impotente diante das agressões e tendia a acreditar que "faziam parte do amor". "O fato é que o meu pai me batia, então, até que ponto eu poderia interpretar um tapa, um aperto forte no braço, um beliscão, um puxão de cabelo como um "não gostar"?", questiona.
O primeiro ato de libertação ocorreu aos 18 anos, quando já desenvolvida fisicamente, respondeu aos insultos do pai e o agrediu. O segundo, anos depois, quando, ao bater no filho de 3 anos, percebeu que estava repetindo o ciclo trágico de sua família também levado adiante por seu irmão - que espancava mulher e filhos. "Prometi neste dia que nunca mais bateria e que só o colocaria de castigo", lembra-se. No entanto, ainda hoje, uma pergunta a atormenta: "Qual a fronteira entre amar uma pessoa e querer matá-la?"

Obs: Os nomes aqui indicados são fictícios, para preservar a identidade das informadoras.
-*-

Fontes: Wlsa e Estadão
Data: 16.09.2012
Postado por Larissa Callegari às 10:37

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